A vivência dos (meta)documentos do inconsciente: itinerários da organização do conhecimento no Museu de Imagens do Inconsciente a partir do olhar de Nise da Silveira

Resumo

A pesquisa se propõe a identificar, descrever e discutir as construções teóricas e aplicadas da organização do conhecimento no contexto histórico-político do Museu de Imagens do Inconsciente (MII). O museu salvaguarda as produções – pinturas, esculturas, dentre outros trabalhos manuais – realizadas pelos clientes da Seção Terapêutica Ocupacional (STO). Ambos os espaços estão localizados no Instituto Municipal Nise da Silveira, um complexo hospitalar psiquiátrico, e relacionam-se, de modos distintos e complementares, com as obras. Elas são produzidas no tratamento terapêutico e suas expressões plásticas são analisadas pelos terapeutas da STO, visando constituir um mapa da psique dos clientes. O museu tem a função de organizar, preservar e comunicar, por intermédio de exposições, este acervo entendido como fonte de conhecimento à variadas áreas. A presente pesquisa tem como objetivo geral investigar os processos de documentação e classificação das obras, analisando, em especial, estes dois espaços, suas confluências e diferenças no olhar sobre as obras. O entendimento da loucura é intimamente vinculado aos processos classificatórios regulados pelos regimes simbólicos que lhes conferem legitimidade no meio social. Discute-se o sentido de informação em saúde mental e seus possíveis vínculos com a Reforma Psiquiátrica Brasileira no contexto analisado. Em um segundo momento, investiga-se a escolha e o papel do Museu como ferramenta de salvaguarda, organização e comunicação do acervo, destacando o elo pendular entre os domínios artísticos e científicos. Os conceitos de dispositivo e os estudos de história da loucura de Michel Foucault, o conceito de vivência em Ludwig Wittgenstein, a filosofia das formas simbólicas de Ernst Cassirer, o pensamento classificatório de Olga Pombo e desclassificação de Antonio García Gutiérrez ancoram a investigação. No plano metodológico, o corpus delineado para o estudo é composto por fontes bibliográficas e metadocumentais (ou seja, instrumentos de organização do conhecimento). A pesquisa, de ordem qualitativa, realiza a identificação e a descrição conceitual das obras de Nise da Silveira, “Imagens do Inconsciente” e “O Mundo das Imagens”, tal como analisa as linguagens documentárias e as ferramentas de representação descritiva presentes no Museu de Imagens do Inconsciente, a saber, álbuns, o guia de estudos Benedito, a sistemática de organização Archive for Research in Archetypal Symbolism (ARAS), livros do tombo e ficha catalográfica. Como resultado, o legado de Nise da Silveira é destacado na organização do conhecimento produzido na instituição. Ao mesmo tempo, é notável o surgimento de novos caminhos, ainda incertos, a modificar – e aprimorar – as heranças antes deixadas pela psiquiatra alagoana ao museu que promoveu por tantos anos. As classificações propostas às obras ampliam o horizonte de perspectivas sobre os metadocumentos que organizam informações imagéticas, especialmente, as imagens compartilhadas no tempo histórico.

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