Ler sons, imaginar mundos: discotecas nacionais e a institucionalização da fonografia mecânica entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX
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Universidade Federal do Rio de Janeiro
Resumo
A tese investiga a institucionalização da fonografia mecânica entre a virada do século XIX e a primeira metade do século XX, que culminou na criação de discotecas nacionais, instituições de preservação e difusão internacional do som fonográfico como documento de conhecimento. Vinculados ao projeto da Liga das Nações de promover um mundo culturalmente integrado em nome do conhecimento e da paz universais, esses empreendimentos questionaram ideais coloniais que basearam os antigos phonogrammarchive europeus, materializando experiências como a da Discoteca Pública de São Paulo. No Brasil, a imaginação de intercâmbios fonográficos articulou-se às vanguardas artísticas latino-americanas e ao gesto antropofágico de devorar repertórios estrangeiros sem renunciar à autonomia intelectual. Essa perspectiva configurou um projeto pedagógico: formar ouvintes-leitores capazes de recombinar referências heterogêneas para a construção de uma cultura própria. A pesquisa compreende a fonografia mecânica como uma rede sociotécnica, envolvendo humanos e não humanos (fonogramas e seus suportes, máquinas fonográficas, saberes, políticas, negócios) cujos entrelaçamentos produziram estabilizações locais e provisórias de confiabilidade tecnológica. Sustentada por uma abordagem relacional e pragmática, analisa práticas e relatos que concretizaram essas associações, ressaltando o papel da escuta na formulação de argumentos mobilizados tanto no passado quanto no presente. O método combina análise documental e bibliográfica com a elaboração de um glossário analítico, composto de categorias que sistematizam articulações empíricas por meio de conceitos operativos, tais como tecnofagia, colonialismo fonográfico, lutas de institucionalização tecnológica e imaginação de substituição tecnológica. Os resultados mostram que a institucionalização da fonografia mecânica não seguiu uma sequência linear de avanços técnicos – como sugerem narrativas tecnológicas sobre arquivos sonoros, entre outras –, mas operou por releituras e reativações, numa lógica de espiral temporal que evidencia recombinações de passados sociotécnicos e desestabiliza dicotomias como centro/periferia, primitivo/avançado e verdadeiro/falso. Conclui que a consolidação fonográfica resultou de um processo profundamente relacional de legitimação sociotécnica, cuja compreensão histórica contribui para repensar desafios contemporâneos de preservação, organização e apropriação da documentação cultural e epistêmica com mediação tecnológica.